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Ferreira Gullar, o poeta e o amigo

Leia artigo do ministro da Cultura, Roberto Freire, veiculado no Blog do Noblat no dia 14 de dezembro de 2016:
Morto no último dia 4 de dezembro, aos 86 anos, Ferreira Gullar deixa um sentimento de perda imenso na cultura brasileira. O escritor, poeta, ensaísta, tradutor, crítico de arte, teatrólogo e militante político era também um dos intelectuais mais ativos e críticos do nosso tempo, vanguardista na essência e imensamente talentoso. O Brasil perdeu uma de suas figuras mais brilhantes, e eu tive de dizer adeus a um grande amigo, companheiro de tantas jornadas e testemunha dos principais acontecimentos da história política do país desde sempre e, em especial, como militante do PCB.
Nascido em 10 de setembro de 1930 em São Luís, José Ribamar Ferreira fez parte de um movimento literário que lançou o pós-modernismo no Maranhão. Já vivendo no Rio de Janeiro nos anos 1950, Gullar se tornou um dos expoentes da poesia concreta, corrente de caráter inovador e experimental, por meio da qual o texto poético não era necessariamente escrito nas páginas de um livro, mas em qualquer lugar onde as palavras se encaixassem. Ferreira Gullar, por exemplo, escrevia seus poemas e os gravava em placas de madeira.
Inquieto e questionador, rompeu com a poesia concreta no fim dos anos 1950 e criou, ao lado de artistas como Hélio Oiticica e Lígia Clark, o neoconcretismo – que valorizava a expressão e a subjetividade, se opondo ao concretismo ortodoxo. Mais adiante, em meados da década de 1960, também se afastou desse grupo e, envolvido com os Centros Populares de Cultura – movimento liderado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) que mobilizou jovens intelectuais brasileiros –, passou a adotar uma poesia mais engajada.
Foi justamente nesse período que Ferreira Gullar se envolveu mais diretamente com a política, militando no velho Partidão e se transformando em um dos grandes ícones da luta pela redemocratização do país. Exilado na União Soviética, na Argentina e no Chile nos anos 1970, em plena ditadura militar brasileira, o poeta escreveu em Buenos Aires aquela que talvez seja a sua obra mais célebre e emblemática, “Poema Sujo”. Os versos foram publicados em livro em 1976, depois de serem divulgados por ninguém menos que Vinícius de Moraes – que gravou Gullar os recitando em uma de suas visitas ao amigo exilado e promoveu audições da fita-cassete em sua casa. Até hoje, o texto é apontado como uma obra-prima da língua portuguesa.
Os anos de Ferreira Gullar no exílio estão resumidos em outra obra magnífica, “Rabo de Foguete”. Trata-se de um relato autobiográfico lançado em 1998 que detalha a vida clandestina do poeta longe de seu país, além de um registro precioso sobre um dos períodos mais sombrios da história brasileira e latino-americana.
Pessoalmente, guardo inúmeras recordações do amigo e do intelectual Ferreira Gullar. Entre elas, estão as “Comuníades”, memoráveis encontros de comunistas na casa de Vera e Zelito Viana, no Rio de Janeiro, ao lado de muitos companheiros que também já se foram, como Armênio Guedes, Leandro Konder, Luiz Mario Gazzaneo, Carlos Nelson Coutinho e tantos outros camaradas do Partidão. Discutíamos sobre política, cultura, arte, o Brasil e o mundo. Dividíamos nossos sonhos e esperanças.
Corajoso e independente, Ferreira Gullar sempre teve espírito contestador, disposição para se reinventar e capacidade de fazer autocrítica e reflexão. Como artista, intelectual e cidadão, foi combativo até o último momento e não se omitiu diante do descalabro político e moral dos governos que tão mal fizeram ao Brasil nos últimos 13 anos. Perdemos um grande brasileiro. Perdi um grande amigo.
“Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta.”
(“Aprendizado”, poema de Ferreira Gullar publicado no livro Barulhos, de 1987)
Roberto Freire
Ministro da Cultura

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